Comentários – O Céu dos Suicidas, de Ricardo Lísias
Sunday, April 15th, 2012
Por Fernando de F. L. Torres,
Para começar, preciso deixar claro: Não confio em Ricardo Lísias. Não no autor acima retratado, mas o narrador de o Céu dos Suicidas. Reiterando o que já foi dito, não importa se a estória é autobiográfica. E exatamente por isso que não confio em Ricardo Lísias. Você confiaria em um especialista em coleções? Ou mesmo, você confiaria em um especialista em coleções que sequer tem uma coleção? Este narrador em primeira pessoa não é confiável, e não só literariamente falando.
Mas não me parece que Ricardo parou de fazer coleções. Ricardo desistiu da coleção de tampinhas em um rito de passagem. Ao se formar no colégio, deixa as tampinhas para colecionar pessoas. Ricardo narra que ao entrar na faculdade largou as coleções para ser uma pessoa sociável, que conversa com todos. Porém o único amigo de Ricardo que se apresenta no livro é André. Nenhum outro personagem mantém um relacionamento com Ricardo senão de coadjuvante ou mesmo cenário. Alguns personagens não são mais do que mera paisagem para a jornada autocentrada do Protagonista.
O narrador tampouco se mostra preocupado em estabelecer ou cuidar dos relacionamentos. As pessoas estão ali para serem colecionadas. Inclusive seu único amigo. André, ao morrer passa a ser parte da coleção. (Ou será que apenas mudou de categoria na coleção?) Ricardo passa a pesquisar sobre André, vai para o manicômio onde foi internado e passa a colecionar as pessoas do manicômio. E como o narrador fica sabendo de alguns detalhes que não poderia presenciar dessas pessoas que coleciona? De duas uma: ou inventa ou os espiona. Duas possibilidades para quem, assim como amigo, coleciona paranoia, surtos e autodestruição. Será mais uma forma de colecionar o Amigo?
Aliás o personagem é tão paranoico e autocentrado que vê em indícios de um mistério familiar, daqueles que toda família tem, a possibilidade de colecionar uma pessoa com uma história de terrorismo. Mas o mistério familiar, por mais claro (e ordinário) que pareça desde que ele é apresentado, é distorcido diante diante desses impulsos de autodestruição e paranoia que o protagonista apresenta.
A narrativa é estruturada de forma que os capítulos curtos impulsionam a leitura do próximo, sempre na expectativa de que ponto o protagonista poderá chegar. Como toda coleção, a vida do protagonista nada tem de grandiosa, mas a busca desta grandiosidade em uma tentativa patética de juntar meros espectros. O protagonista agarra à memória de seu amigo morto, como um colecionador agarra à nostalgia. Ricardo Lísias (o escritor) mostra, mais uma vez pelo humor, a tragédia burguesa. A vida é cheia de som e fúria, e nada mais, a vida retratada por Lísias ressalta que este nada mais é um enorme vazio.






